Prof. Dr. Guilherme Luiz Bortoletto
A visão do mundo subaquático talvez seja o principal atrativo do mergulho recreativo e de competição. Prejudicada, ela compromete a segurança do mergulhador e a possibilidade de observar o meio ambiente subaquático.
Erros Refrativos – Necessidade de Óculos:
A passagem da luz através da água, quando cruza a interface água / ar para dentro da máscara de mergulho provoca uma magnificação da imagem de cerca de 25 a 30%. Esta propriedade óptica é um artifício poderoso para proporcionar uma visão adequada do meio ambiente, mesmo quando o mergulhador tem necessidade de uso de lentes corretivas.
Quando o usuário tem necessidades maiores de correção, pode utilizar máscara com lentes adaptadas ou máscaras que tenham recuo adequado para adaptar uma armação de óculos.
Quando as pessoas passam dos 40 anos de idade ocorre a presbiopia: necessidade do uso de óculos de perto para visibilização de objetos próximos (cerca de 40cm do rosto). Este fato não é um detalhe, pois é importante conseguir fazer a leitura dos instrumentos; portanto, dependendo da idade do mergulhador, mesmo quando este tenha uma boa visão para longe, pode ser necessário uso de máscara com adaptação para leitura próxima.
Lentes de Contato:
Quando se pensa em uso de óculos dentro de água, automaticamente se pensa na adaptação de lentes de contato. As lentes de contato podem ser gelatinosas ou rígidas gás permeáveis. O aporte de oxigênio para a córnea usando lentes de contato é garantido, pois a pressão de oxigênio dentro da máscara garante o suprimento do gás.
Como o ar dentro da máscara é uma mistura de gases, pode ocorrer a formação de bolhas entre a lente de contato e a superfície da córnea. Este fato pode provocar borramento da visão e pode ser contornado simplesmente aumentando o número de piscadas.
Quando a máscara está cheia de água, até ocorrer a equalização, retirando a água com o ar, os olhos devem ser fechados para que as lentes não se desloquem ou pulem do olho.
Após o mergulho, pode ocorrer a formação de edema superficial na córnea que provoca borramento da visão e sensação de corpo estranho. O usuário deve então usar lágrimas artificiais (colírios lubrificantes) e esperar algum tempo até que o edema naturalmente regrida.
A água abriga uma quantidade infindável de microorganismos que, no usuário de lentes de contato, pode encontrar condições para provocar uma infecção na superfície dos olhos. Entre as infecções de córnea provocadas por esta junção de fatores (usuário de lentes de contato – contato com água de mar, piscina, rio, etc) existe uma afecção que ganha grande importância que é a infecção por Acanthamoeba. Esta infecção específica é rara, mas assume gravidade tal, que na grande maioria dos casos evolui para a necessidade de transplante de córnea.
O usuário de lentes de contato deve se utilizar de lentes “one day”, ou seja, após o uso, fazer o descarte da lente para reduzir ao máximo a chance de contrair uma infecção. Mesmo se utilizando de soluções adequadas para limpeza das lentes de contato, ainda não existe nenhum produto que elimine o Acanthamoeba das lentes de maneira totalmente segura.
Cirurgias:
A Oftalmologia é uma das especialidades médicas que mais rapidamente avança, proporcionando a realização de cirurgias corretivas cada vez mais sofisticadas e seguras, proporcionando maior liberdade às pessoas. Por outro lado, as pessoas mais velhas também procuram novas experiências, com o aumento da longevidade e com a melhoria da qualidade de vida na terceira idade. Nesta perspectiva, o mergulho pode tornar-se atrativo, pois permite movimentos que facilitam ultrapassar limitações físicas. Não raro, pacientes que já sofreram cirurgias oftalmológicas procuram o mergulho como esporte ou lazer.
POSSO MERGULHAR APÓS CIRURGIAS OCULARES?
SIM, MAS ANTES É FUNDAMENTAL FALAR COM O SEU MÉDICO.
De modo geral podemos dizer que:
- Pacientes submetidos a cirurgias de catarata ou que realizaram implantes de lentes intra-oculares fácicas (correção de altos graus) podem fazer mergulho após 3 meses.
- Pacientes submetidos a transplante de córnea devem esperar pelo menos 6 meses, pois a incisão é maior e envolve retirada de pontos por longo tempo, com uma superfície ocular mais sensível a agressões do meio ambiente.
- Pacientes portadores de glaucoma sabem que pressão é fator importante na evolução da doença. Como estariam expostos a pressão da água, temem que isto possa aumentar o dano provocado pela doença. Este temor é imotivado; o glaucomatoso bem controlado, sem progressão da doença não corre risco ao fazer mergulho. Os pacientes com glaucoma, por vezes sofrem cirurgias complexas que estabelecem uma fragilidade na superfície do olho que poderia levar a uma maior facilidade de infecção intra-ocular quando realizam mergulho. Estes casos devem ter uma avaliação personalizada quanto à possibilidade de realizar mergulho.
- As cirurgias para retina ou vítreo retinianas podem demandar repouso variando de 2 a 6 meses ou mais, conforme a dificuldade do caso.
- As cirurgias mais populares, com certeza são as cirurgias para correção de ametropias (miopia, hipermetropia, astigmatismo) com uso do laser. As suas várias modalidades como LASIK, LASEK, PRK geralmente tem recuperação em 6 semanas.
CURIOSIDADES
- Durante o mergulho com luz natural as cores vermelhas desaparecem abaixo de 30 pés de profundidade e, o amarelo com 75 pés. Abaixo dos 100 pés, prevalece praticamente o azul e o verde. Isto ocorre pelos diferentes comprimentos de onda das diferentes cores que são decompostas na propagação pela água.
- Com o uso da máscara de mergulho os objetos parecem mais próximos do que realmente estão.
- O olho é mais protegido do barotrauma pois é preenchido por fluidos que não permitem a formação de bolhas intra-oculares. Contudo é fundamental o mergulhador preencher a máscara com o ar expulso pelo nariz para não permitir que se forme pressão negativa dentro da máscara. Este efeito provocaria a sensação de "chupar" os olhos. Esta ocorrência pode provocar edema palpebral e hemorragias sub conjuntivais (manchas vermelhas na parte branca do olho). Apesar de desagradável não provoca dano ao olho e não precisa ser medicado.
Prof. Dr. Guilherme Luiz Bortoletto CRM 63116
Prof. da Faculdade de Medicina ABC
guilherme@molinari.com.br
tels 011 3056 9955
011 4436 9744