Barotraumas e mergulho
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Por Daniela Carlini
A aplicação direta da pressão a um corpo pode causar um trauma, principalmente quando este é causado pelo efeito das mudanças do volume de gás contido dentro de cavidades no corpo humano, cavidades estas que não tem comunicação com o meio ambiente durante todo o tempo, Isto inclui o ouvido externo, ouvido médio e indiretamente o ouvido interno, os seios paranasais, os pulmões, intestinos e até mesmo canais dentários.
Durante o mergulho, principalmente no autônomo, as desordens otorrinolaringológicas são as mais comumente observadas. Na descida, o ar inspirado é comprimido devido ao efeito da pressão atmosférica a que estamos sendo submetidos e que varia a cada profundidade que o mergulhador se encontra, este processo se dá de maneira contrária ao subir, ou seja, ao diminuir a profundidade o gás que foi inalado para dentro das cavidades aéreas, encontra-se em expansão, pois está sendo submetido a menos pressão atmosférica.
Qualquer mergulho que se faça é multinível, portanto o mergulhador está todo tempo de fundo sofrendo a ação da pressão atmosférica e das variações de volume do gás das cavidades aéreas além de variações das trocas gasosas com o meio ambiente, a este processo fisiológico dá-se o nome de equalização das pressões, é feito de forma passiva, ou seja sem esforços, porém eventualmente este processo não ocorre espontaneamente e há necessidade de forçar a equalização das pressões, a este procedimento chamamos de “Manobra de Valsalva”.
Os praticantes de mergulho autônomo ou mergulho livre (em apnéia) devem ter em mente que na prática deste esporte à equalização das pressões entre as cavidades e o meio ambiente em que se encontram deve ser o mais fisiológica, ou seja, o mais natural possível, sem que ocorram grandes esforços para que estas pressões se igualem. Se a equalização das pressões for realizada com muito esforço, ou seja, uma Manobra de Valsalva, porém forçada, o ar que entra nestas cavidades durante a descida provavelmente teve a necessidade de vencer algum tipo de resistência e esta nem sempre permite que o ar inalado saia quando se faz a subida, gerando então o barotrauma de determinadas cavidades como os seios da face, ouvido médio e ouvido interno. As lesões conseqüentes a essa imprudência vão desde pequenas coleções líquidas e sangue em seios da face e ouvido médio, até lesões mais sérias como a ruptura de membrana timpânica; outra conseqüência grave do barotrauma da orelha média é o rompimento da janela redonda e/ou de janela oval (que fazem a comunicação da orelha média com a orelha interna) levando a surdez muitas vezes irreversível, porém estes menos comuns.
Com pequenos cuidados pode-se evitar este tipo de lesão durante seu mergulho autônomo, antes mesmo de se aventurar a um irresistível “check-out”, se caso o futuro “scuba diving” apresente sintomas freqüentes de vias aéreas altas, como rinite e sinusite ou mesmo otite é prudente a avaliação de um especialista para eventual esclarecimento e orientação, em contrapartida quando o megulhador apresentar quadros gripais ou de crise alérgica, tanto o bom senso como os otorrinolaringologistas orientam evitar mergulhar.
Porém existem casos onde o mergulhador não apresenta nenhuma queixa de via aérea alta como congestão ou secreção nasal e mesmo assim é difícil a equalização, é importante nestes casos observar a condição do mergulho como a presença de termoclina, descida ou subida muito rápidas, impossibilitando respectivamente, a entrada e saída adequada do ar das cavidades aéreas; outra circunstância não menos comum ocorre quando o mergulhador não apresenta controle adequado de sua flutuabilidade, e não mantém uma profundidade estável uma vez alcançado o objetivo do mergulho.
Como dito anteriormente qualquer mergulhador na prática do esporte está sujeito a traumas decorrentes da pressão atmosférica a que se encontra, porém na maioria das vezes este tipo de lesão acaba acontecendo devido a imprudência do próprio mergulhador. Mergulhar é um esporte extremamente prazeroso, desde que sigamos regras e normas pré-estabelecidas, estas, incansavelmente informadas nos cursos de mergulhos que fazemos ou estamos por fazer.
Já a doença descompressiva é primariamente resultado das bolhas de gás nitrogênio inerte presentes nos meios ou nas cavidades; ocorre quando eventualmente num mergulho mal planejado ou mesmo num procedimento de emergência, o nitrogênio inalado durante o mergulho não pôde ser totalmente eliminado do sangue pela respiração e portanto este nitrogênio fica nas cavidades e tecidos causando lesões de gravidade variável dependendo da quantidade deste gás e localização do mesmo durante a ascensão do mergulho. Tanto o barotrauma como a doença decompressiva podem ocorrer simultaneamente, porém apresentam etiologias completamente diferentes e ambas são causadas pelo mesmo gás que respiramos durante o mergulho autônomo.
- Hamilton-Farrell M; Bhattacharyya A Barotrauma. Injury;35(4):359-70, 2004 Apr. Parris C; Frenkiel S . Effects and management of barometric change on cavities in the head and neck. J Otolaryngol;24(1):46-50, 1995 Feb.
- Strutz J . Otorhinolaryngologic aspects of diving sports, HNO;41(8):401-11, 1993 Aug.
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Por:
Daniela Carlini é Médica Otorrinolaringo-logista, Mestre e Doutora em medicina pela UNIFESP - EPM e mergulhadora recreacional
Data: 16/10/2006 |
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